Lar Educação Sem indignação pública não há justiça para as mulheres – 09/03/2026 – Vera Iaconelli
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Sem indignação pública não há justiça para as mulheres – 09/03/2026 – Vera Iaconelli

Para entender a violência contra a mulher tem um jeito simples: trata-se de uma opressão histórica em benefício dos homens, mantida à base de muita ameaça, assédio, estupro e assassinato, que recrudesce à medida que a mulher começa a ganhar terreno. Já a ideologia que sustenta essa opressão é mais complicada, pois se apresenta de formas bem distintas, a depender da época.

É na modernidade, com a ascensão da burguesia, que “trabalho” passa a ser sinônimo de “trabalho remunerado” e que todas as outras tarefas para a manutenção da vida são consideradas obrigações naturais ou formas de amor à família. Essa lógica faz com que a mulher contraia uma dívida impagável. “Passar o dia todo em casa” –cuidando em tempo integral dos filhos, do marido, dos doentes e dos mais velhos– deixa de ser trabalho e se torna sinônimo de não fazer nada comparável a uma profissão. A posição que a mulher ocupa é a de alguém que deve dar graças a Deus por ter quem a sustente.

Como, na maioria das vezes, ela também trabalha fora, deve compensar sua ausência por não estar cumprindo sua vocação: ser do lar. Essa contradição é escamoteada com malabarismos mentais.

Primeiro, a ideia de que foi ela que “pôs filhos no mundo”. Então, nada mais justo que trabalhe para sustentá-los e para se sustentar, pois, como se diz: “os filhos são da mãe”. A outra é a ideia de que a mulher foi naturalmente talhada para se dedicar ao outro, atribuição que só serve para eximir o homem de toda a esfera de cuidado, inclusive de si mesmo. (Um esforço hercúleo está sendo feito para que a licença paternidade passe de 5 para míseros 20 dias)

O sexo não escapa dessa lógica. Quando o “guerreiro” que trabalhou o dia todo chega em casa, ele espera que ela “cuide” dele com seus préstimos sexuais (o estupro marital só foi inteiramente reconhecido em 2009).

E qual o risco que ela corre se perder esse príncipe que a trata como inferior? Ficar à mercê de todos os outros homens. Eles fazem a patrulha dos costumes aos moldes dos regimes teocráticos. Mulher solteira, “solta”, pode ser pega por qualquer um. Para evitar o risco, melhor ficar com o sapo que ela já conhece.

Vale escutar o episódio da Rádio Novelo sobre os trabalhos feitos nas prisões com homens que agrediram ou mataram suas companheiras. Dos estudos sobre o tema se deduz a urgência de discutir gênero nas famílias e nas escolas.

A ideologia faz com que as mulheres entendam a masculinidade a partir do poder sobre os outros e a feminilidade como subserviência. Não raro, uma mãe enaltece a “masculinidade” do filho assediador e um pai desqualifica a filha e vice-versa.

Campanhas misóginas devem ser tão inaceitáveis quanto as racistas e as homofóbicas. A judicialização de redpills e outros aliciadores de crianças e jovens fazem parte dessa empreitada.

A violência contra a mulher não tem nada de novo ou incompreensível, pois é o retrato de uma guerra que estamos cansadas de perder. No mais recente descalabro cometido contra uma mulher –o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos–, vimos uma reação pública inequívoca e eficaz. Reação que obrigou os Poderes a funcionarem.

O repúdio generalizado, que uniu direita e esquerda, é fundamental para a desideologização do ato misógino.


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