A psicanálise no Brasil vem se reinventando. Talvez seja mais justo dizer que os jovens psicanalistas brasileiros vêm reinventando a psicanálise. Não sem causar algum ruído no norte global, onde ela nasceu. Aqui, tem-se discutido como seria possível pensar conceitos como complexo de Édipo, identificação, trauma e parentalidade, só para citar alguns, sem levar em conta a experiência de colonização e de miscigenação forçada que nos funda.
Um grupo de pesquisadores dentro de uma instituição conhecida, por exemplo, repensa a psicopatologia freudiana a partir do estudo do banzo. Esse é o nome dado ao adoecimento relacionado à experiência de escravização. As mazelas psíquicas que decorrem da nossa história dizem muito mais a respeito dos fundamentos da nossa subjetividade do que as histéricas que serviram de modelo para Freud pensar o inconsciente. Ou melhor, o precioso modelo de Freud, produzido em seu território e época, só nos vale se puder ser usado para pensarmos as condições materiais que vigoram aqui, e não na Europa. Ainda que o funcionamento inconsciente nos aproxime, os fenômenos a que estamos submetidos devem ser considerados. Para distinguir a escuta do inconsciente dos fenômenos subjacentes, o analista precisa reconhecer ambos.
Esse giro não se deu graças à boa vontade de psicanalistas brancos e renomados que um dia acordaram e passaram a olhar para os fenômenos específicos com os quais lidamos. Foram os cotistas das universidades que, ao se formarem e escolherem o campo “psi”, trouxeram os temas espinhosos que a academia e as instituições psicanalíticas escamoteavam até então (em lacanês, diríamos que foracluíam). Esses jovens começaram a questionar o epistemicídio (a exclusão de autores/as negros/as e de temas interseccionais), a ausência de análises acessíveis, imprescindíveis para a formação de psicanalistas, as barreiras linguísticas dos diferentes territórios dentro do Brasil para pensar a formação dos analistas, entre outras questões.
A pressão para recebê-los em instituições consagradas se tornou irrecusável e encontra respostas mais ou menos exitosas. Afinal, políticas de inclusão sem as correspondentes políticas de permanência podem desembocar em novas formas de sofrimento. Os suicídios de jovens universitários são suficientemente eloquentes para mostrar a necessidade de acompanhar o processo de inclusão.
Os jovens psicanalistas que vêm de territórios e classes sociais desfavorecidas não devem nada às instituições que os recebem, porque elas não teriam como se fazer relevantes no Brasil do século 21 sem eles. Os estudos a que passaram a ter acesso são balizados por seus próprios saberes e têm a periferia como destinatária. Quando começam a clinicar, não se propõem a virar as costas para seus territórios de origem nem a “pagar pau” para as instituições psicanalíticas hegemônicas. A ideia é de intercâmbio, de trabalho compartilhado, sem perder o direito de ter acesso a tudo a que a geração anterior teve acesso por dispor de recursos. Tampouco a psicanálise do norte global pode prescindir dos estudos feitos em nosso país hoje, que incluem temas como colonização, racismo, gênero, território e classe. A psicanálise ocupa outras paragens, mas é psicanálise. “Tá ligado?”
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