Com a divulgação do espelho da redação do Enem 2025 pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), na terça-feira (17), candidatos passaram a ter acesso à correção detalhada dos textos. Entre eles, um grupo restrito alcançou a nota máxima e ajuda a entender o que diferencia uma redação de mil pontos no exame.
A Folha reuniu alguns desses textos para mostrar como os estudantes desenvolveram o tema “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, aplicado no primeiro dia de prova, e quais estratégias usaram para sustentar seus argumentos e propor soluções.
Para atingir a nota máxima, é preciso ir bem nas cinco competências avaliadas pela banca.
- A primeira cobra o domínio da norma culta da língua escrita.
- A segunda avalia a compreensão do tema e a capacidade de desenvolver o texto dentro do recorte proposto.
- A terceira observa a organização e a defesa dos argumentos.
- A quarta analisa a coesão e a coerência.
- Já a quinta exige uma proposta de intervenção detalhada e que respeite os direitos humanos.
A seguir, veja exemplos de redações nota mil e as soluções apresentadas pelos candidatos.
CONFIRA AS REDAÇÕES NOTA MIL E SUAS TRANSCRIÇÕES
Carlos Eduardo, 21, Mombaça (CE)
Há seis anos, o estudante Carlos Eduardo, 21, não imaginava alcançar a nota máxima na redação do Enem. Em 2020, na primeira tentativa, tirou 460 pontos. Desde então, evoluiu, virou professor de redação e ingressou em medicina na UFC (Universidade Federal do Ceará).
Diante de um tema que considerou amplo, sobre o envelhecimento na sociedade brasileira, Carlos diz que o primeiro passo foi delimitar o recorte para não se perder. A partir disso, estruturou o texto com base em uma lógica de causa e consequência, dividindo a argumentação em dois eixos centrais: a negligência do Estado e a falha da mídia.
No desenvolvimento, o estudante sustentou cada uma dessas causas com repertório teórico. Na introdução, recorreu à ideia de “sociologia das ausências”, do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, para apontar a invisibilidade dos idosos. Ao tratar do papel do poder público, usou o conceito de “necropolítica”, do filósofo Achille Mbembe, para criticar a desassistência estatal. Já na discussão sobre a mídia, citou “A fabricação do consentimento”, de Noam Chomsky, para argumentar que a exclusão do tema reforça estigmas. Leia a seguir:
O sociólogo e professor Boaventura de Sousa Santos afirma que a sociedade vive uma “sociologia das ausências”, uma vez que os saberes e o modo de vida de determinados grupos tendem a ser invisibilizados por não se encaixarem na lógica da racionalidade ocidental. Nesse sentido, ao analisar o hodierno contexto brasileiro, é perceptível que a população idosa é marcada pela sociologia defendida pelo professor, já que o envelhecimento desses indivíduos testemunha um descaso social de desassistência e preconceito, marcado por perspectivas que dificultam a qualidade de vida e a inclusão social. Por isso, urge uma discussão sobre essa problemática, a qual é sustentada não só pela negligência estatal, mas também pela omissão midiática.
Diante desse cenário, faz-se mister mencionar a ausência de políticas públicas de saúde para a população idosa como um dos fatores dessa estigmatização. Nessa ideia, verifica-se que esse panorama é facilmente encaixado no conceito de “necropolítica”, descrito pelo filósofo Achille Mbembe para explicar o poder do Estado de decidir quem pode viver e quem deve morrer. Partindo dessa lógica, o “deixar morrer” é visível quando se observa a realidade de milhares de idosos na comunidade brasileira, haja vista que a omissão dos órgãos estatais afeta a qualidade de vida, evidenciada pelo não destino de verbas que garantam o desenvolvimento de atividades físicas e interativas nos Centros de Referência Especializado e de Assistência Social (CREAS), além da ausência de campanhas preventivas, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), para doenças que acometem essa idade, como diabetes e hipertensão. Consequentemente, perpetua-se uma sociedade que marginaliza o envelhecimento e que sofre com os impactos causados por essa desassistência: o aumento de doenças e, com isso, o aumento de gastos públicos. Logo, fica clara a necessidade de reformular essa postura do Estado urgentemente.
Outrossim, é válido destacar, também, que a inexistência de abordagens midiáticas sobre a importância do envelhecimento configura-se como uma das causas desse imbróglio. Segundo o filósofo estadunidense Noam Chomsky, em sua obra “A fabricação do consentimento”, afirma que a maneira mais inteligente de manter as pessoas passivas é limitar o seu espectro de opinião e criticidade. Nessa acepção, conclui-se que esse comportamento intencional legitimado pelo filósofo é visualizado na agenda dos aparelhos midiáticos que envolve o envelhecimento devido à mentalidade etarista que se expressa, principalmente, pela não abordagem da importância da inclusão profissional e da representatividade em espaços importantes — a exemplo de cargos políticos e vagas em universidades — desses indivíduos. Por conseguinte, cria-se uma malha social que distancia a população idosa do convívio social, relegando-os à solidão e à passividade social. Assim, enquanto persistir essa exclusão midiática, jamais será possível atenuar esse óbice.
Portanto, cabe ao Poder Executivo, por meio do Ministério da Saúde — órgão responsável pelas diretrizes nacionais do sistema de saúde — em parceria com os CREAS, desenvolver atividades físicas de grupo e movimentos interativos, como dança e pintura, que despertem a população idosa para o cuidado físico, bem como campanhas de prevenção nas UBS às doenças da terceira idade, com a finalidade de garantir uma qualidade de vida saudável. Além disso, os veículos midiáticos devem retratar a personalidade do envelhecimento em figuras e espaços de poder para combater o idadismo. A partir dessas execuções, as perspectivas do envelhecimento no Brasil serão outras, agora não mais a da “sociologia das ausências”.
Caio Braga, 18, Recife
“Sapere aude” (ou “ouse saber”). É com a frase do filósofo Immanuel Kant que Caio Braga, 18, resume sua filosofia de estudo. Mesmo sem cronograma fixo ou horas cronometradas, o estudante alcançou a nota mil na redação do Enem 2025, resultado almejado por milhões de candidatos. O método, segundo ele, foi transformar o ato de lecionar em forma de preparação.
Na redação, Caio reservou de cinco a dez minutos para planejar o texto antes de iniciar o rascunho, sobre o tema “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira“. Ele usou o livro “O Caraíba”, do escritor indígena Daniel Munduruku, para tratar da valorização dos idosos entre povos originários; citou a Lei do Sexagenários, de 1885, para discutir o envelhecimento como um falso privilégio no Brasil escravocrata; e recorreu ao filme “Vitória”, protagonizado por Fernanda Montenegro, para apresentar a figura da idosa como agente ativa da própria vida.
“Soube trazer três elementos diferentes da cultura brasileira de um jeito que dialogavam entre si e apresentavam ideias distintas dentro do tema”, afirma. Leia a seguir.
Em “O Karaíba”, o autor indígena Daniel Munduruku traz narrativas dos povos originários no Brasil pré-cabralino. Nessa obra, ele retrata elementos característicos das culturas e dos costumes das comunidades tradicionais, como o respeito aos mais velhos e à sua sabedoria. Nesse contexto, é nítido que a perspectiva dos personagens do livro não reflete a forma como a sociedade brasileira enxergou o envelhecimento ao longo do tempo, tampouco as tendências mais modernas disso.
Historicamente, no Brasil, envelhecer é um privilégio, não um direito. Isso é evidenciado por estratégias de manutenção da ordem social implementadas pelas elites, como a promulgação da Lei do Sexagenário — uma das leis pré-abolicionistas, que libertava escravizados maiores de sessenta anos. Ao contrário do senso comum, que vê essa medida como uma conquista para eles, a historiografia entende que essa medida não tinha intenções reais de oferecer liberdade a essas pessoas, pois suas expectativas de vida eram baixíssimas. Nesse cenário, portanto, envelhecer não era uma oportunidade para todos os brasileiros, mas um privilégio de alguns.
Por outro lado, correntes contemporâneas de pensamento colocam os idosos e o envelhecimento em outras posições: de enfrentamento ao etarismo, de atividade física e econômica e de engajamento político e social. Um exemplo disso é o filme estrelado por Fernanda Montenegro, em 2025, “Vitória”, em que a atriz interpreta uma senhora em uma comunidade periférica no Rio de Janeiro e expõe suas denúncias contra a violência e o tráfico onde vive. Sob essa óptica, a figura do idoso deixa um espaço de fragilidade e impotência e passa a assumir protagonismo de sua própria vida.
Dessa forma, tendo em vista as múltiplas perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira, é necessário que o Ministério da Educação, por meio de iniciativas de capacitação e autonomia para idosos —como o “projeto envelhecer” do Cin-UFPE, que os ensina a conviver no ambiente digital— atue na formação dessas pessoas para que resgatem sua independência bem.
Wellington Ribeiro, 19, Recife
O outro pernambucano com nota mil é Wellington Ribeiro, 19. Quando o Inep liberou os resultados, no início da madrugada, ele acordou a família inteira e passou horas comemorando. “Foi cansativo, mas espetacular”, resume.
Na redação, o recifense usou referências variadas para discutir o tema. Citou o conto “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector; a Lei dos Sexagenários; e o pensamento do sociólogo Ruy Braga, para apontar a falta de políticas e campanhas eficazes sobre o envelhecimento no país.
Wellington não seguiu métodos milagrosos, mas apostou no que chama de “feijão com arroz” da preparação para o vestibular: a constância. Leia o resultado a seguir.
Na obra “Feliz aniversário, a escritora Clarice Lispector aborda, dentre outros aspectos, a realidade de exclusão vivenciada por grande parte dos idosos brasileiros, os quais, de acordo com a autora, só são lembrados por seus familiares em datas comemorativas. Ao transpor o viés literário, percebe-se a acentuação dessa problemática, a qual aborda a falta de perspectiva social perante ao envelhecimento existente no Brasil contemporâneo. À vista desse conceito, é ideal analisar o passado nacional e o descaso governamental como desafios para a plena longevidade da sociedade.
Diante desse cenário, nota-se que a dificultosa promoção de um futuro digno à terceira idade advém de um processo de desenvolvimento nacional pautado na exclusão socioespacial. Isso pode ser constatado, de forma evidente, pois o país, desde o período do Brasil Colônia, foi construído por práticas violentas (como a promulgação da Lei dos Sexagenários), as quais visavam à marginalização de escravizados com mais de 60 anos em detrimento da inserção respeitosa dessa parcela da população no cotidiano brasileiro. Nesse sentido, essa atitude segregacionista mascara, há gerações, a necessidade de reverter esse revés e naturaliza, nos dias atuais, o silenciamento desenfreado dos idosos, produzindo culturalmente a ideia de inferioridade desse grupo. Assim, torna-se inegável o contínuo retrocesso da nação a cerca do reconhecimento da velhice como importante e inevitável, à medida que a manutenção de raízes históricas degradantes existe.
Ademais, é fundamental ressaltar que a negligência estatal perpetua a aversão social ao inerente envelhecimento populacional. Essa questão se intensifica, na atualidade, ao passo que o Brasil não possui uma campanha nacional concreta e eficaz de estímulo à qualidade de vida da terceira idade. Tal panorama foi estudado pelo pesquisador Ruy Braga, o qual, a partir de uma perspectiva crítica voltada à realidade latino-americana, verbaliza que a ausência de um modelo assistencial inclusivo e socialmente comprometido permite o não reconhecimento dos idosos como integrantes ativos da sociedade. Sob essa ótica, o posicionamento do estudioso é válido, visto que políticas públicas ineficientes possibilitam a precarização do bem-estar da terceira idade, de modo a qualificar essa faixa etária como pouco importante para a edificação da nação – suprimindo o seu futuro salutar. Por isso, essa situação hostil precisa ser revertida.
É premente, portanto, uma medida que perpetue perspectivas positivas ao envelhecimento populacional. Logo, cabe ao poder Executivo Federal — mais especificamente ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania — fomentar o respeito à terceira idade. Tal ação ocorrerá por meio da criação do “Projeto Nacional Vida Feliz”, o qual engajará debates públicos — ministrados por idosos —, nos 5570 municípios brasileiros, a fim de desmistificar ideais advindos da colonização do Brasil e de protagonizar a atuação de pessoas idosas no combate direto e frontal à marginalização sofrida por elas, culminando na promoção da dignidade a essa parte da sociedade. Afinal, não é aceitável que, em um país democrático, a população envelhecida seja, como denunciado por Clarice, invisibilizada.
















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