Sim, os EUA são um anfitrião esquisito, que entende tanto de futebol quanto nós de beisebol, e a Fifa uma entidade que se curvou de forma indigna a Donald Trump, MAS a Copa é um sucesso tão grande que esta quarta-feira (8) sem jogo parece triste e desolada como um estádio vazio debaixo de chuva.
O “mas”, conjunção adversativa, é um índice de complexidade do pensamento que merece mais atenção. Anda em baixa nossa capacidade de sustentar simultaneamente duas ideias contraditórias, porém razoáveis, cada uma correta a seu modo. Ou seja, ponderar: é isso, mas também é aquilo.
O futebol nos ensina muitas coisas, e entre elas o valor de opor dois adversários –palavra parente de adversativo– no mesmo campo de jogo, submetidos às mesmas regras, e ver a que conclusão eles chegam.
Por maior que seja a disparidade entre os oponentes, o resultado jamais estará dado de antemão por tradição ou riqueza. Estas têm peso, mas a vitória de Davi sobre Golias é um raio que cai com frequência em campos de futebol –e a Copa 2026 tem sido especialmente elétrica.
O “mas”, do latim “magis” (mais), desafina os coros algorítmicos, especialistas em chapar tudo –ou é isto ou é aquilo. O futebol valoriza o “mas”.
Sim, França x Paraguai foi um jogo sul-americanizado no mau sentido, catimbado por uma equipe que se sabia inferior e que queria o mínimo de futebol em campo –MAS esse esporte é assim mesmo, não deixar jogar também é jogar, e aos paraguaios nunca se negou bravura.
Sim, o Egito foi garfado pela arbitragem, que anulou seu segundo gol contra a Argentina após uma intervenção do VAR tão preciosista quanto incoerente com os critérios adotados na Copa –MAS o que Messi fez no gramado na reação dos atuais campeões é de guardar na retina para sempre.
Sim, o Brasil é a única seleção pentacampeã, MAS há tempos apresenta um futebol de segundo escalão, chama fraca com lampejos aqui e ali –para nem falar dos momentos de total ausência de lucidez.
Faz tempo que o fogo verde-amarelo não tem intensidade nem sustentação de maçarico –”chalumeau” em francês. Nossa missão agora é investigar por quê. Eu começaria apostando no diagnóstico do Tostão de que faltam craques no meio de campo.
Se compreendesse um pouco o esporte mais popular do mundo, Trump saberia que contratava uma derrota ao dobrar o dobrabilíssimo presidente da Fifa, Gianni Infantino, e obter a anulação da suspensão automática de seu principal jogador, o centroavante Balogun, na partida contra a Bélgica.
Mesmo que viesse a vencer, a seleção dos EUA sairia desmoralizada do episódio. Acabou por valer uma velha regra do futebol –não escrita, mas inclemente–, e a mistura de constrangimento dos próprios jogadores com indignação dos adversários levou a uma sapatada redentora aplicada nos donos da casa e comemorada em todos os cantos da Terra.
Para eles, aprendizado: futebol é soft power, MAS sabe bater bem hard.
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