Nossa sociedade tem sido baseada no consentimento das mulheres, fazendo do “não” feminino algo inaceitável. O levante das iranianas contra a morte da jovem Mahsa Amini, em 2022, por causa de seu véu, não foi capaz de convulsionar o Irã como a atual crise econômica. Foi a quebra da economia que fez os comerciantes se levantarem contra o regime.
O mesmo grupo que apoiou a ascensão do aiatolá Ali Khomeini e suas leis ultramisóginas nos anos 1970 se juntou a outros descontentes, tomando as ruas contra o atual governo de Ali Khamenei. Jovem morta por véu mal posicionado é ok, falta de grana não.
Para sustentar o prédio da subordinação feminina, sempre ameaçado de ruir, criamos um tipo de feminilidade hegemônico: mulher bela, recatada e do lar. O que se traduz por: aquela que agrada, obedece e cuida. Agradar e obedecer são os pontos que os incels e os red pills não cansam de exigir de suas supostas candidatas. Para a feminilidade que eles defendem, com a qual algumas mulheres se identificam, a subalternidade é o centro.
A questão do cuidado, no entanto, é de outra ordem. Ela é condição da civilidade que ainda nos resta e promove laços entre mulheres de diferentes crenças e posições políticas. Do exercício do cuidado emerge um sujeito mais afeito à intimidade e à reflexão sobre a própria vida. No mínimo, alguém que não vê o homicídio como a melhor solução para conflitos.
E para quem acha que os predicados femininos e masculinos são imutáveis, vale dizer que essa crença é a própria definição de ideologia: supor natural o que é construção humana. As definições de mulher e homem variam a depender da época, do território, do povo, mas, no mundo das narrativas invertidas, nas quais a própria linguagem está sob ataque, quem reflete criticamente sobre gênero faz “ideologia de gênero”. (Enquanto isso, e por mérito da comoção que se seguiu à série “Adolescência”, o Reino Unido torna obrigatória a discussão sobre misoginia e consentimento dentro das escolas.)
Quando a mulher diz “não”, ela não está apenas se indispondo com o companheiro, com o amigo, com o chefe. Ela está colocando água no angu do capitalismo. O trabalho invisível das mulheres serve de apoio para que os demais trabalhadores possam ser explorados, assunto que a esquerda costuma driblar. “Ter uma mulher” é ter alguém que assume todas as tarefas que, de outra maneira, o homem teria que assumir: lavar, passar, cozinhar, cuidar dos filhos, transportá-los, cuidar dos idosos, dos enfermos. Luta de classe sem emancipação feminina é mais um dos tentáculos da misoginia.
Dizer “não” ao trabalho invisível abala a estratégia de exploração econômica vigente até aqui. Dizer “não” a gestações indesejadas afeta o déficit demográfico que assombra países desenvolvidos. Abala o modelo masculino de poder, essencialmente bélico.
Dizer “não” às investidas masculinas indesejáveis abala a posição do homem que se fia no poder sobre as mulheres para se reconhecer como tal. Só forçando ou matando a mulher —e, com isso, eliminando o arbítrio dela— esse tipo de homem acha que recupera sua identidade masculina.
O “não” feminino atinge a sociedade de formas assustadoras e promissoras. Sem encarar a angústia que vem junto com isso, fica difícil avançarmos.
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