Um pai assassinar os próprios filhos para castigar a mãe revela as condições nas quais vivemos. Mulheres são traídas, violentadas e mortas todos os dias e não saem matando ninguém. A tragédia da Antiguidade grega “Medeia” chega até nós como obra-prima justamente pela sua excepcionalidade.
A personagem se presta a fazer o impensável: quebrar o paradigma da mãe acima da mulher. Medeia vinga todos os abandonos femininos, desvelando a posição desejante feminina no mundo.
Já o filicídio paterno como vingança reitera a crença de que filhos são da mãe. É a mesma lógica por trás do corriqueiro abandono dos pais diante da notícia de uma gestação ou de um divórcio. É o famoso “os filhos são da mãe” a serviço da desreponsabilização.
Há homens que entendem que sua participação na parentalidade se sustenta pelo simples ato de inseminar, seguido de um intervalo de décadas que só será quebrado se houver necessidade da ajuda dos filhos na velhice. Muitos voltam para exigir o cuidado físico, psíquico ou financeiro que supõem que a descendência deveria lhes dar por terem lhe dado a vida. Como se ejaculação fizesse de alguém pai.
Ainda que os homens sejam responsáveis perante a lei pela gravidez que engendram, sabemos que o status de pai requer muito mais. Daí a sugestão do uso da palavra “genitoridade” (inseminar) para distinguir de paternidade (assumir, cuidar…).
Diante da descoberta de que a mulher deseja outra coisa, o homem frágil e pouco viril, petrificado pela comparação com outros homens, busca destruí-la na posição onde ela é mais reconhecida socialmente, na maternidade. A disputa patrimonial, outro ponto de fragilidade feminina, também é alvo comum, mas, para isso, existe a lei e o direito de defesa.
Além do assassinato dos filhos, temos a reação que o sucede, tão assombrosa quanto. A mãe, vítima da atrocidade do marido, tem que deixar o velório dos filhos sob gritos e ameaças. O recado é explícito: uma mulher deve tolerar a infidelidade do marido pelo bem da família, sendo que o inverso jamais será verdadeiro.
Esse é o mantra que se escuta desde pequena de familiares, de religiosos, de amigos, base do discurso conservador em prol de um tipo específico de família. Aquela na qual o desejo da mulher não está em pé de igualdade com o do homem.
Se ela é mãe, há um agravante, pois a maternidade promete dessexualizá-la. Todo seu desejo seria satisfeito pelo cuidado com os filhos. Ao homem cabe procurar fora a satisfação que não pode esperar mais obter com a mãe dos seus filhos.
Enredo anacrônico, de novela dos anos 1950? Não é o que o alarmante aumento de feminicídios prova. Só ultrapassamos esse ideário em bolhas histriônicas que fazem parecer que os avanços chegam para todas.
Em 2026, uma mulher que se nega ao homem corre o risco de apanhar, ser estuprada ou morrer. A traição feminina é comparável ao assassinato de duas crianças, embora, em outras bolhas, a própria ideia de traição seja anacrônica e questionável. Esses mundos ainda não conversam.
Para enfrentar a violência contra a mulher precisamos parar de fingir que se trata de casos isolados e assumir que essas são as manifestações explícitas do discurso conservador sobre o lugar das mulheres na sociedade.
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