Lar Educação Professora premiada defende estágio maior para docentes – 13/02/2026 – Educação
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Professora premiada defende estágio maior para docentes – 13/02/2026 – Educação

A paulistana Débora Garofalo, 46, recebeu o prêmio de professora mais influente do mundo durante a cerimônia do Global Teacher Prize, da Fundação Varkey, considerado o Oscar da educação mundial.

Embaixadora da fundação, ela não participaria do evento, ocorrido em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos no início do mês, mas foi chamada em cima da hora com a informação de que receberia um reconhecimento por seu trabalho nas escolas públicas brasileiras, que já renderam a ela diversas outras homenagens.

“Eu só fui descobrir que era um prêmio no jantar de gala, quando eles começaram a contar a minha história e pediram para que eu subisse ao palco. Naquele momento é que caiu a minha ficha. Sem dúvida nenhuma, o prêmio não é um reconhecimento individual, mas um marco simbólico e prático para a educação brasileira. Especialmente, para a escola pública”, afirma a docente.

Em 2019, Débora já havia se tornado a primeira mulher sul-americana a ser finalista no Global Teacher Prize com o projeto de ensino de robótica com sucata para estudantes de escolas públicas na periferia de São Paulo.

Desta vez, ela foi a grande homenageada, e com prêmio inédito, criado especialmente para homenagear professores que também atuam como influenciadores de políticas públicas e de opiniões, extrapolando o cotidiano escolar.

“Desde 2019, quando deixei a sala de aula, eu aproveitei o impacto do meu trabalho para construir uma política pública sólida de democratização de acesso à tecnologia e à inovação. Então, eu acho que eu tive bastante êxito nessa parte de poder fomentar e ajudar a contribuir para a educação do nosso país.”

Com esse reconhecimento internacional, ela pretende usar sua influência para tentar melhorar a educação brasileira. Seu prêmio, inclusive, é visto por ela como a prova de que é preciso fortalecer e valorizar a profissão docente.

Para isso, ela tem algumas sugestões. Uma delas é aumentar o tempo de estágio dos professores antes de eles assumirem uma sala de aula. Para justificar essa ideia, ela cita o caso dos médicos, que precisam fazer dois anos de residência em hospitais antes de se graduarem.

“Falo que o meu magistério foi melhor do que qualquer uma das duas universidades que cursei, tanto de letras como de pedagogia. Porque eu estudava no período da manhã, mas à tarde eu já estava ali, os quatro anos, em estágio, uma carga intensiva, sabendo quais eram os problemas que eu ia enfrentar em sala de aula, quando eu assumisse o meu cargo. E hoje a gente ainda não tem isso. Temos um estágio que é de pouquíssimas horas, comparado, por exemplo, à residência médica, que é de dois anos. A gente deveria fazer algo muito similar para a nossa educação.”

Ela ainda sugere aumentar a integração entre as universidades e as escolas, dando oportunidade para os futuros professores aprenderem a rotina na prática, além de estabelecer um maior diálogo dos estados com os municípios em acordos de cooperação, e melhorar a visão geral enquanto política pública federal.

“A gente ainda tem uma educação muito segmentada. As universidades conversam muito pouco com a educação básica. Em países lá fora, como os Estados Unidos, é muito comum você ver as universidades dentro das escolas públicas e as escolas públicas fazendo estágio dos novos professores. Assim, os professores, quando ingressam numa rede pública, não ingressam já na sala de aula, eles ingressam fazendo um estágio.”

Outro ponto cobrado por ela é a melhoria da infraestrutura de ensino, principalmente referente à conectividade e à inovação tecnológica, situação que ela não observa em outros países.

O último relatório da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), de 2025, destaca que o Brasil investe em educação cerca de um terço da média de investimento dos países desenvolvidos do grupo. Por outro lado, os professores ganham praticamente metade do que ganha a média dessas nações.


Aula de robótica


No ano passado, Débora recebeu um convite do presidente Volodimir Zelenski para levar o trabalho de robótica com sucata para a Ucrânia. Lá, ela viu que há uma grande valorização docente, apesar de ser um país em guerra.

“Eu fiquei pensando o motivo de eu estar ali e entendi claramente que, apesar de eles terem uma tecnologia de ponta, eles não sabem muito bem fazer essa coisa mais simples que a gente faz aqui no nosso país. Tanto é que ensinei as crianças lá a fazer lanterna para passar o inverno, para fazer luzes para eles não ficarem totalmente no escuro nos blecautes”, conta.

“Então, a gente vê que o Brasil está num cenário importante internacional, mas ainda falta muito investimento. O reconhecimento que eu tenho lá fora não é o mesmo que eu tenho dentro do nosso país. Isso é uma pena.”

Ela vê como contrassenso, por exemplo, a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) que permite que 5% dos recursos atualmente destinados à educação sejam transferidos para a saúde.

“Hoje no nosso país 82,9% dos estudantes estão dentro de escolas públicas. Então, cada vez que a gente tira a qualidade e acesso ao investimento dessas escolas a gente tira o poder de essas crianças serem alguém, o poder de o país prosperar”, afirma.

Professora convidada da USP (Universidade de São Paulo) e da PUCRS, Débora tenta passar otimismo aos futuros docentes, mas deixando claro os desafios a serem enfrentados.

“Apesar dos desafios, essa é a única base para transformar realmente uma sociedade. Eu tento passar um pouco das histórias que vivenciei em sala de aula, dos desafios que tive. Tento também replicar muito os olhares dos meus próprios professores e, principalmente, o envolvimento do território educativo. Não existe hoje uma educação integral sem o envolvimento desse território educativo.”

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