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Ronco infantil vai além do incômodo e pode afetar desenvolvimento

O ronco infantil voltou ao centro das conversas nas redes sociais após a influenciadora Virgínia Fonseca relatar que as filhas, Maria Alice, de quatro anos, e Maria Flor, de três, foram diagnosticadas com aumento das amígdalas e da adenoide e devem passar por cirurgia ainda este ano. O caso, embora tenha ganhado visibilidade pelas mãos da influenciadora, está longe de ser exceção. Pelo contrário, faz parte da rotina de muitos consultórios e da realidade das famílias brasileiras.

Dados da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) indicam que uma em cada 30 crianças brasileiras apresenta apneia obstrutiva do sono, condição que tem o ronco como um dos sintomas mais comuns.

Sinal frequente no consultório

No atendimento clínico, o ronco infantil aparece como uma das queixas mais recorrentes. Segundo o médico otorrinolaringologista Gustavo Jorge, o sintoma raramente vem sozinho e costuma estar associado a uma série de alterações percebidas pelos pais.

“No consultório, é muito comum que o ronco venha acompanhado de relatos de sono agitado, pausas na respiração, sudorese noturna e até mudanças no comportamento durante o dia. Muitas crianças chegam com queixas de irritabilidade, dificuldade de concentração e queda no rendimento escolar”, afirma.

O especialista destaca que, na prática, o aumento de amígdalas e adenoide é a principal causa identificada. “Essas estruturas, quando hipertrofiadas, funcionam como uma barreira mecânica à passagem de ar. Isso leva a um esforço respiratório maior durante o sono, fragmenta o descanso e impede que a criança atinja fases profundas e reparadoras do sono”, explica.

Ele também chama atenção para o perfil dos pacientes mais afetados. “Observamos maior incidência em crianças com rinite alérgica, asma, excesso de peso ou histórico de prematuridade. São fatores que contribuem para a inflamação crônica das vias aéreas e agravam o quadro”, completa.

Quando investigar e por quê

Nem todo ronco é motivo de preocupação imediata. Episódios pontuais, especialmente durante gripes e resfriados, são esperados. O alerta, segundo o médico, está na frequência e na persistência do sintoma. Crianças que roncam por mais de 15 dias consecutivos, sem associação com quadros infecciosos, devem ser avaliadas. Isso porque a respiração inadequada durante o sono pode gerar uma cascata de impactos no organismo. “O sono fragmentado interfere diretamente na regulação hormonal. Há estudos que mostram alterações na secreção de leptina, grelina e do hormônio do crescimento. Isso pode impactar tanto o desenvolvimento físico quanto o controle do peso”, destaca Gustavo Jorge.

Além disso, pesquisas associam distúrbios respiratórios do sono na infância a prejuízos cognitivos, como déficit de atenção e memória, e a riscos futuros, incluindo hipertensão arterial e arritmias cardíacas na vida adulta. Na rotina escolar, os efeitos também aparecem. Crianças com sono de má qualidade tendem a apresentar mais dificuldade de aprendizado, desatenção e até comportamento hiperativo, muitas vezes confundido com outros transtornos.

“Os pais e responsáveis devem observar padrões, identificar sinais associados e buscar avaliação especializada quando o ronco deixa de ser ocasional. Em muitos casos, o tratamento adequado resolve não apenas o sintoma, mas melhora de forma significativa a qualidade de vida da criança e de toda a família”, reforça o especialista.

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