“Pois nunca por nós passou nenhum homem na sua escura nau que não ouvisse primeiro o doce canto das nossas bocas; depois de se deleitar, prossegue caminho, mais sabedor”, diz a IA.
Não, espera. Quem diz isso não é nenhuma IA, são as duas sereias que tentam Odisseu, também conhecido como Ulisses, no canto XII da Odisseia. (A bela tradução é de Frederico Lourenço, edição da Companhia das Letras.)
É claro que, tendo se apropriado na mão grande de milhares de anos de patrimônio artístico, o robô pode, se quiser, falar com a voz de Homero. Ou com qualquer outra. Todo mundo não achou legal fazer autorretrato plagiado do Studio Ghibli?
E assim o robô e as sereias cantam em uníssono seu canto irresistível. Como aquelas criaturas fantásticas nascidas milhares de anos antes de Cristo, o robô alardeia saber “todas as coisas que acontecerão na terra fértil” –só isso.
Irresistível, lógico. Quem, por exemplo, vai perder horas de vida escrevendo páginas e páginas, palavra por palavra, se pode fabricar um trabalho acadêmico decente num minuto?
Claro que, “escrito” dessa forma, o trabalho nada valerá para seus propósitos —nem como exercício para o autor, nem como elucidação do leitor, que estará diante de uma pasta de mediania linguageira a simular linguagem, como numa impressora 3D.
Nessa hora se entende o perigo: em seu incongruente prado no meio do mar, as sereias da Odisseia —que são metade mulheres, metade pássaros, o rabo de peixe tendo surgido bem mais tarde– estão cercadas de “amontoadas ossadas de homens decompostos”.
A humanidade não tem como resistir a esse encontro nem como sair viva dele. Odisseu só consegue porque, alertado pela feiticeira Circe, manda que a tripulação o amarre ao mastro e tapa os ouvidos de todos com “cera quente”.
É assim que o herói ouve o “doce canto” demencial e tenta se entregar a ele —à própria extinção. Impedem-no os companheiros surdos, imunes ao feitiço, apertando-lhe ainda mais as cordas.
Odisseu já foi acusado de egoísta por isso —o único a ouvir as sereias, a se expor à vertigem de tal conhecimento. Eis a diferença entre sua história e a nossa: hoje todos ouvimos o canto dos robôs, e a maioria já se lançou ao mar.
Irresistível: dizem que a IA generativa é a maior ferramenta já criada. Certo, mas só será ferramenta para quem for mais esperto do que ela, para quem dominar seu ramo de linguagem para saber primeiro o que pedir e, depois, se aquilo presta –no todo ou em parte, como, em que contexto etc.
Quem não tiver aprendido a usar suas próprias palavras, por exemplo —em geral à custa de incontáveis leituras, tentativas e erros—, terá com IAs de “escrita” uma relação subalterna de fornecedor de matéria-prima. Ou pior, de batedor de palma para robô dançar. E as sereias lamberão os beiços.
Se não quisermos que o humanismo vire um monte de ossadas, vamos precisar de muita corda e muita cera quente neste 2026. Meus votos de ano novo é que sobrem suficientes de nós para tocar o barco rumo a Ítaca, seja lá onde fique essa miragem.
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