Lar Educação Estudantes raramente leem livros inteiros nos EUA – 23/12/2025 – Educação
Educação

Estudantes raramente leem livros inteiros nos EUA – 23/12/2025 – Educação

Nas escolas de ensino médio americanas, a era dos livros pode estar chegando ao fim. Muitos adolescentes recebem poucas tarefas de leitura de livros completos —geralmente apenas um ou dois por ano—, de acordo com pesquisadores e milhares de respostas a uma pesquisa informal com leitores realizada pelo The New York Times.

As notas de leitura do 12º ano (equivalente ao 3º ano do ensino médio no Brasil) estão em mínimos históricos, e professores universitários, mesmo em escolas de elite, relatam cada vez mais dificuldades em fazer com que os alunos se envolvam com textos longos ou complexos.

Talvez isso seja esperado na era do TikTok e da inteligência artificial. Alguns especialistas em educação acreditam que, em um futuro próximo, até mesmo as histórias e os conhecimentos mais sofisticados serão transmitidos principalmente por meio de áudio e vídeo, os formatos que dominam na era da mídia móvel e de streaming.

Queríamos descobrir como alunos e professores se sentem em relação a essa mudança e qual papel as escolas podem desempenhar. Então, o The New York Times pediu a educadores, pais e alunos que nos contassem sobre suas experiências com leitura no ensino médio.

Mais de 2.000 pessoas responderam.

Muitos eram professores experientes que relataram passar menos livros completos agora do que no início de suas carreiras. Alguns reclamaram do efeito da tecnologia na resistência dos alunos para a leitura e no interesse por livros. Mas a maioria apontou para os produtos curriculares que suas escolas haviam adquirido de grandes editoras.

Esses programas geralmente giram em torno de alunos lendo contos, artigos e trechos de romances, depois respondendo a perguntas de formato curto e escrevendo pequenos ensaios.

Os alunos normalmente acessam o conteúdo online, frequentemente usando laptops fornecidos pela escola. Essas práticas começam no ensino fundamental, e quando chegam ao ensino médio, a leitura de livros pode parecer um obstáculo assustador.

Programas curriculares populares que se concentram em trechos foram criados por editoras, em parte, para ajudar a preparar os alunos para testes padronizados estaduais. Muitas escolas e professores estão sob pressão significativa para aumentar as notas dos alunos nesses exames de final de ano, que alimentam os sistemas de prestação de contas estaduais e federais. Os resultados dos testes também são destacados em sites de classificação escolar e imobiliários.

Quando os professores terminam seus currículos obrigatórios e preparam os alunos para os exames, geralmente têm pouco ou nenhum tempo para orientar as turmas na leitura de um livro inteiro.

Andrew Polk, 26, ensina inglês para o 10º ano (equivalente ao 1º ano do ensino médio no Brasil) em um subúrbio de Ohio, não muito longe de onde cresceu. Como estudante do ensino médio há menos de uma década, ele recebeu muitos livros para ler, entre eles, “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, “O Cadinho” e “Seus Olhos Observavam Deus”.

Mas como professor, Polk deve usar o StudySync, que se concentra em trechos. Muitos colegas não acreditam que os alunos lerão livros inteiros, disse ele, embora tenha observado que sua própria experiência não confirmou isso.

Ele ainda passou várias obras mais longas a cada ano e ensinou “Macbeth”, “Fahrenheit 451” e o mais contemporâneo “Cidades de Papel”, de John Green. Os adolescentes ainda sentem “paixão por uma boa história”, disse ele. “Os alunos absolutamente podem e conseguem estar à altura da ocasião. É apenas uma questão de estabelecer essas expectativas.”

Quando livros inteiros são entregues, eles são mais frequentemente de uma lista relativamente estagnada de clássicos, de acordo com pesquisas dos estudiosos Jonna Perrillo e Andrew Newman.

O que pode ter mudado mais é o número desses clássicos que os alunos leram. Durante o ano letivo de 2008-2009, uma pesquisa descobriu que os professores de inglês do ensino médio atribuíam uma média de quatro livros anualmente, com uma minoria significativa passando sete ou mais livros.

Uma pesquisa de 2024 com professores de inglês realizada por Perrillo e Newman descobriu que eles atribuíam uma média de 2,7 livros inteiros por ano. Os resultados serão publicados em 2026.

Alguns educadores explicaram o declínio apontando para o “Common Core” (equivalente à Base Nacional Comum Curricular, no Brasil), um conjunto de padrões nacionais para inglês e matemática que a maioria dos estados adotou no início da década de 2010, e que continua a moldar fortemente a prática em sala de aula.

O “Common Core” foi criado para preparar melhor os alunos para a faculdade e introduziu mais leitura de não-ficção e escrita baseada em teses nas escolas. Também sugeriu uma variedade mais culturalmente diversa de autores e direcionou os educadores para uma longa lista de títulos caracterizados por “significado histórico e literário”.

Muitos distritos escolares responderam exigindo que os professores aderissem estritamente a produtos curriculares que adotavam uma abordagem de antologia —expondo os alunos a dezenas de escritores e muitos gêneros, mas através de leituras mais curtas. O StudySync, por exemplo, inclui um único capítulo de “O Clube da Felicidade e da Sorte” de Amy Tan, 1.179 palavras de “Nascido do Crime” de Trevor Noah e os “Artigos Federalistas: Nº 10” de James Madison.

Sandra Lightman, uma consultora educacional que ajudou a desenvolver o “Common Core“, concordou que os alunos deveriam estar lendo livros inteiros, mas argumentou que era errado culpar o Core, que, segundo ela, foi mal interpretado.

Defensores do Core haviam apontado que alguns romances comumente atribuídos a adolescentes, como “As Vinhas da Ira”, não eram desafiadores em termos de vocabulário e estrutura de frases. Eles eram equivalentes a um nível de leitura de segunda ou terceira série, apesar de serem tematicamente ricos.

“Nunca pretendemos que isso fosse proibido, apenas que não deveria ser a única fonte de leitura”, disse Lightman. Ela argumentou que, no geral, os produtos curriculares incluem material de leitura de maior qualidade e mais interessante hoje do que há 20 anos, antes do “Common Core”.

Existem outros motivos pelos quais algumas escolas preferem trechos. Pode ser mais caro comprar livros do que passar uma variedade de obras mais curtas, que não estão sujeitas a restrições de direitos autorais e podem ser facilmente lidas em um laptop ou tablet.

Além disso, com mais de 20 estados aprovando leis nos últimos cinco anos que limitam o ensino sobre raça, gênero e sexualidade, o uso de trechos permite que as escolas evitem passagens que tratam de temas proibidos.

Timothy Shanahan, especialista em alfabetização e autor do currículo StudySync, disse que não há dados sugerindo que os alunos se tornem leitores mais fortes quando recebem romances completos. A abordagem dominante atual —ler um ou dois livros completos por ano como turma, junto com muitos trechos— “faz muito sentido”, disse ele, como uma maneira de apresentar aos alunos uma ampla variedade de escritos.

Ainda assim, alguns jovens estão frustrados com a falta de leitura de livros em suas escolas.

Ella Harrigan, 22, da cidade de São Francisco, disse que leu apenas um livro em seu primeiro ano, “O Ódio que Você Semeia”. “Optei por não participar e fiz um curso online, onde lia um livro a cada duas semanas”, disse ela.

Pais que responderam ao questionário também reclamaram, mesmo quando seus filhos estavam matriculados em aulas avançadas em algumas das escolas públicas mais conceituadas dos EUA, incluindo escolas de ensino médio na cidade de Nova York e escolas suburbanas com dinheiro no Condado de Montgomery, no estado de Maryland.

Ambos as cidades disseram que incentivam uma mistura de livros inteiros e trechos, mas dão aos diretores e professores do ensino médio uma latitude significativa sobre com que frequência atribuir obras mais longas.

Kasey Gray, porta-voz da Imagine Learning, a empresa que desenvolve o StudySync, observou que o currículo oferece algumas unidades baseadas em romances completos. Mas Gray reconheceu que as escolas que usam o programa podem não incorporar livros inteiros.

“Entendemos as restrições reais que os educadores enfrentam —tempo limitado, pressões de avaliação e diversas necessidades dos alunos”, disse ela em um comunicado.

O StudySync é distribuído pela McGraw Hill, e os materiais vêm com uma espécie de aviso:

Observe que os trechos na biblioteca StudySync® são destinados como pontos de referência para gerar interesse no trabalho de um autor. “A StudySync®” acredita que tais passagens não substituem a leitura de textos inteiros e recomenda fortemente que os alunos procurem e comprem a obra literária ou informativa completa.

Empresas que publicam produtos concorrentes centrados em trechos, incluindo “Savvas e Houghton Mifflin Harcourt, disseram que também incentivam os professores a entregar livros inteiros.

O Into Literature da Houghton Mifflin Harcourt inclui uma peça de teatro completa em cada ano do ensino médio. Em resposta a solicitações de distritos escolares, a empresa está desenvolvendo mais planos de aula diários construídos em torno de romances completos, disse Jennifer Raimi, vice-presidente sênior de desenvolvimento de produtos.

Existem muitas escolas, educadores e editoras desafiando a tendência de afastamento dos livros inteiros —mesmo que tenham que dobrar as regras para fazê-lo.

“Muitos professores são revolucionários secretos e ainda atribuem livros inteiros”, disse Heather McGuire, uma professora experiente de inglês do ensino médio na cidade de Albuquerque, Novo México. No último ano, ela passou para seus alunos aos seus alunos do penúltimo e último ano “Hamlet“, “A Autobiografia de Malcolm X”, “As Aventuras de Pi” e “Narrativa da Vida de Frederick Douglass”.

Seus alunos, disse ela, disseram que preferem muito mais ler livros impressos do que em uma tela.

Este artigo apareceu originalmente no The New York Times

FONTE

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Recentes

Categorias

Artigos relacionados

Só 12% das obras de educação do governo Lula são entregues – 15/03/2026 – Educação

O governo Lula (PT) entregou até início de março 12% de 6.227...

Dia da matemática: como superar dificuldades no vestibular – 14/03/2026 – Educação

“Odeio essa matéria”, “sou de humanas”, “não consigo aprender nada”. Frases como...

O que a Ásia ensina sobre IA na educação – 14/03/2026 – Educação

A inteligência artificial está redesenhando profissões, modelos de negócio e a forma...

Nikolas adere à campanha “Ele não” contra Erika Hilton

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) aderiu à campanha “Ele Não” lançada...