Na discussão sobre ter ou não filhos, argumenta-se, erroneamente, que seria egoísmo não tê-los. Argumento tolo que serve para manipular a reprodução a serviço de interesses outros, seja o desejo particular de cada um —sempre forjado por motivações pessoais inconscientes—, seja por problemas demográficos do Estado.
A escolha de tê-los sempre será pautada pelo encontro entre nossas necessidades individuais e as demandas sociais, embora haja quem goste de imaginá-la como pura e altruísta.
Uma das motivações mais ou menos conscientes que fazem parte dessa empreitada é que os filhos nos redimam dos pais que tivemos. Freud demonstrou que somos eternas crianças e que persistem em nós as mais obtusas demandas infantis. Entre elas, a queixa de que nossos pais poderiam/deveriam ter sido melhores ou de que, de tão “perfeitos”, temos que fazer jus à maravilha que nos deram.
Ao ter filhos, nos vemos entre duas gerações, tentando transmitir ou tentando evitar transmitir o legado que recebemos. De fato, são promessas impossíveis, pois não temos poder sobre o que transmitimos e, quanto mais tentamos reprimir, pior a coisa fica. Claro que a transmissão aqui não se trata de ensinar os costumes e hábitos da família, da comunidade na qual os filhos nasceram. A insistência exaustiva em ensinar como se comportar à mesa, no elevador, na escola, no banheiro, enfim, costuma ser recompensada.
A transmissão de que trata a psicanálise é aquela sobre a qual se evita falar, de caráter inconsciente e que, por isso mesmo, tem efeitos disruptivos e inesperados. No desejo por filhos está embutida a ideia de reparação, esperança de que conosco será diferente. Será… e não será.
Em parte eles nos vingam, em parte nos lembram que são herdeiros não apenas da genética e das nossas boas intenções, mas de todas as histórias e dilemas das gerações que nos antecederam. Não raro, será o neto a escancarar a loucura da família depois de uma geração que parecia ter se salvado de avós adoecidos.
Recomendo novamente o filme “Jovens Mães”, dos irmãos Dardenne, no qual uma mãe abusiva tenta convencer a filha de que com a neta seria possível “começar do zero”, para depois recair na violência. Em seguida, ela refaz a promessa, na qual até acredita, num ciclo enlouquecedor. Se houvesse um zero, ele remontaria a Adão e Eva.
O limite do que podemos controlar na transmissão inconsciente está colocado para todos os pais e responsáveis. A promessa de reparar nossa experiência como filhos por meio da prole esbarra na combinação entre a carga da nossa história e a forma como cada filho responderá a ela.
Um pai conta que quando precisa conversar com a filha adolescente sobre risco ligado ao álcool e a festas, perde as estribeiras e não consegue dialogar. Festas acionavam a pior lembrança dele: o estupro da sua irmã na juventude, sobre o qual ele nunca havia falado.
O descontrole do pai transmitia mais sobre seu trauma do que qualquer fala, criando um enigma sobre o desejo dele, para o qual a filha respondia testando limites. Mas ela poderia ter respondido com fobia social, por exemplo.
A parentalidade é feita de promessas que, em grande parte, os filhos provam ser “planos de Cebolinha” dos pais. Também os filhos terão que fazer algo com isso.
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