Em Minas Gerais, dois eventos marcam o início da safra mineira de café: a Fenicafé (Feira Nacional de Irrigação em Cafeicultura), em Araguari, e os desdobramentos do 2º Encontro da Jornada Trabalhista, realizado na semana passada em Patrocínio, com a presença do Cecafé, da Expocacer, da Starbucks e do Ministério do Trabalho.
À primeira vista, são agendas distintas. Uma técnica, outra institucional.
Na prática, apontam para o mesmo vetor: o café brasileiro deixou de ser apenas uma commodity. Passou a ser um ativo rastreável, auditável e, cada vez mais, precificado por critérios que vão além da produtividade.
O encontro de Patrocínio reuniu cerca de 100 participantes (empregadores rurais, técnicos, contadores e cooperativados) em torno de um tema sensível: a necessidade de dissociar a imagem da cafeicultura brasileira de práticas irregulares de trabalho. Mais do que uma agenda reputacional, trata-se de acesso a mercado.
Rastreabilidade e conformidade não são custo. São prêmio de preço. O café brasileiro nunca valeu tanto.
E exatamente por isso, o erro mais caro desta safra não é vender barato. É não ter decidido quando vender.
O cenário mudou e o câmbio explica parte disso
O arábica tipo 6 bebida dura é negociado hoje próximo de R$ 1.920 por saca (referência Minasul), sustentado por um fator que poucos modelos antecipavam com precisão: um real significativamente mais forte.
O dólar opera abaixo de R$ 5,00, no nível mais forte do real desde maio de 2024, pressionado pela perda do excepcionalismo americano e pela rotação global de capital para mercados emergentes.
e um lado, o câmbio apreciado sustenta a demanda externa, o café brasileiro fica mais competitivo em dólar para o torrefador europeu e americano.
De outro, comprime o colchão cambial que historicamente protegia a margem do produtor.
O resultado é sutil, mas relevante. R$ 1.920 com dólar a R$ 5,00 é um resultado completamente diferente de R$ 1.900 com dólar a R$ 5,80. O preço é o mesmo. A margem não. Quem travou câmbio acima de R$ 5,80 já está operando em outra realidade.
A safra recorde que o mercado já conhece
A Conab projeta 66,2 milhões de sacas para 2026 esse número representa um crescimento de 17,1% sobre 2025, com o arábica liderando a expansão em 23,3%, para 44,1 milhões de sacas. Casas privadas como o Itaú BBA trabalham com números ainda maiores, acima de 69 milhões. A StoneX projeta superávit global de 10 milhões de sacas no ano.
Nada disso é novidade para o mercado. E é exatamente esse o ponto. Safra recorde já está precificada.
O que ainda não está são os dois vetores que vão definir a margem nos próximos 90 dias.
Os dois vetores que realmente importam agora
No curto prazo, o preço não será definido pelo tamanho da safra. Será definido pelo comportamento da oferta.
O primeiro vetor é o calendário. A colheita começa pelas áreas irrigadas do Cerrado e ganha força nas regiões tradicionais entre maio e junho. À medida que a oferta física entra no mercado, o comprador perde urgência. O resultado já começou a aparecer: desde 25 de março, o arábica acumula queda de mais de R$ 100 por saca no mercado físico, com liquidez seletiva e compras apenas pontuais, segundo o Cepea.
O segundo vetor, clima, é mais silencioso e mais importante para quem pensa além da colheita atual. Projeções do ECMWF (Centro Europeu de Previsões Meteorológicas) e de consultorias especializadas indicam a formação de um ciclo de El Niño de intensidade rara entre 2026 e 2027, potencialmente o mais forte em 140 anos. Para o arábica no Cerrado, Sul de Minas e Mogiana, isso significa um inverno mais quente e menor ocorrência de frio intenso e essa condição que pode comprometer a florada da safra 27/28.
O mercado ainda não precifica isso de forma plena. Mas começará.
Preço é cenário. Margem é decisão. Entre a pressão da safra e o risco climático de 2027, está a janela em que o produtor define seu resultado.
A lógica da comercialização neste ciclo
O momento atual ainda oferece uma janela de proteção. Com preços historicamente elevados e câmbio comprimindo a margem, travar parte da produção não é perda de oportunidade, é preservação de resultado.
Com base no cenário atual, três faixas estruturam a decisão:
Cenário pessimista
- R$ 1.550–1.680
- Safra confirma acima de 68 mi sacas, câmbio segura abaixo de R$ 5,20, estoques globais se recuperam mais rápido. Pressão máxima em julho e agosto.
Cenário base
- R$ 1.800–1.950
- Safra dentro da Conab, câmbio estável entre R$ 5,10–5,20, estoques se recuperam parcialmente. Referência atual para decisão comercial.
Cenário otimista
- R$ 2.050–2.250
- Frustração de safra por El Niño ou novo choque logístico. Baixa probabilidade no curto prazo; mais relevante para o lote retido no segundo semestre.
À medida que a colheita avança, a capacidade de armazenagem passa a ser um diferencial real, não vender no pico de oferta pode representar diferença relevante por saca. Mais à frente, com maior clareza sobre o volume efetivo e o comportamento climático, o mercado tende a reprecificar. É nesse ponto que o lote retido deixa de ser estoque. Passa a ser opcionalidade.
Segue um exemplo hipotético de uma matriz de estrutura de decisão.
O papel das cooperativas neste ciclo
Para as cooperativas do Cerrado, Sul de Minas e Mogiana, o movimento é claro. Mais do que originar café, passam a estruturar decisões.
Ferramentas como CPR com trava de preço, hedge cambial e acesso a contratos futuros na B3 deixam de ser diferenciais e passam a ser parte da entrega básica ao cooperado. O mercado está premiando quem consegue transformar produção em fluxo previsível.
Vale registrar: o preço mínimo governamental para o arábica na safra 26/27 é de R$ 792,53 por saca. Com o físico acima de R$ 1.900, essa referência está mais de 140% abaixo do preço real. O produtor não tem rede de proteção governamental relevante neste ciclo. Tem o mercado, a estrutura da cooperativa e a sua própria gestão de risco.
A safra 2026 começa com o café em patamares historicamente elevados e uma produção potencialmente recorde. É um momento que combina oportunidade e risco na mesma intensidade.
O El Niño pode redefinir o equilíbrio do mercado em 2027. Mas essa oportunidade não pertence a quem espera. Pertence a quem chega até lá com estoque e estrutura para carregá-lo.
Como tenho reiterado nesta coluna: o mercado não pune a falta de euforia. Ele pune a falta de estrutura. No café, isso se traduz de forma simples: o preço que você realiza não é o que aparece na tela. É o que você decidiu capturar antes de a colheita começar.
















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