A preparação para os vestibulares passa por uma transformação que atinge a maioria dos jovens brasileiros. Dados da pesquisa TIC Educação, de setembro de 2025, apontou que 7 em cada 10 alunos do ensino médio admitem usar ferramentas de inteligência artificial para trabalhos escolares. Esse movimento mostra que a tecnologia se tornou parte do dia a dia do estudante.
No entanto, o cenário apresenta um desafio. Apenas 32% desses estudantes ouvidos na pesquisa —realizada pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação)— relatam ter orientação escolar sobre como lidar com essas tecnologias.
O sucesso do estudo com inteligência artificial depende da capacidade de entender que a ferramenta funciona como suporte, não como substituta do estudo tradicional e do processo de aprendizagem.
Ademar Celedônio, professor e diretor de ensino e inovações educacionais da Arco Educação, afirma que o estudante precisa desenvolver a habilidade de construir raciocínios e articular ideias com autonomia. Assim, o uso da tecnologia fortalece o desenvolvimento.
Os especialistas ressaltam que a IA deve ser entendida como uma ferramenta de apoio ao pensamento, e não como uma fonte única de verdade. Nesse contexto, saber questionar e interpretar o que é gerado é essencial.
Guilherme Silveira, CIO (diretor de tecnologia da informação, em português) da Start by Alura, explica que o estudo é um processo de pesquisa e compreensão que envolve o erro. Para ele, copiar uma resposta da IA impede que o estudante consolide o conhecimento.
“O fato de eu assistir a um jogo de futebol narrado por um locutor não me faz um jogador, eu tenho que jogar para aprender”, exemplifica. “O mesmo ocorre com o exercício de química. Eu preciso errar para aprender a acertar. Só que você não aprende se alguém apenas entregar a resposta pronta.”
Padrões de erro e a ajuda nas revisões
A capacidade de processar informações em larga escala permite que as inteligências artificiais identifiquem falhas que o olhar humano deixaria passar. Marcos Raggazzi, professor e diretor executivo das unidades escolares do Bernoulli Educação, explica que esse mapeamento ajuda a superar as limitações naturais da mente na percepção de erros recorrentes.
Para Raggazzi, esse processo funciona como uma identificação de sintomas que orienta a preparação. “A IA pode auxiliar os alunos nessa identificação de erros. Isso ocorre porque, quando o estudante consegue perceber um padrão de comportamento recorrente, ele pode, então, investir seu tempo no estudo e no aprimoramento.”
Além disso, a IA pode atuar como uma aceleradora do estudo, permitindo que o estudante faça resumos estruturados e mapas mentais, por exemplo, sobre os temas mais recorrentes.
“O estudante pode pedir explicações em diferentes níveis de complexidade, do básico ao avançado, o que permite comparar abordagens, refinar o entendimento e consolidar o aprendizado”, afirma Celedônio.
Outro ponto é que a tecnologia ajuda a monitorar o ritmo e a programar revisões para evitar a curva de esquecimento do conteúdo, que ocorre ao longo do tempo de estudo. Segundo Raggazzi, o ideal é que o aluno tenha condições de revisar, no mesmo dia, o que assistiu em aula, utilizando ferramentas.
“Ao passar pelo mesmo caminho neural algumas vezes, o cérebro entende que a informação é importante e precisa ser consolidada na memória, e não apagada”, explica Raggazzi.
A qualidade dos comandos e os limites
A eficácia da interação com a inteligência artificial no momento do estudo depende da qualidade dos comandos fornecidos pelo próprio estudante. Silveira explica que o vestibulando deve tratar a ferramenta com clareza e descrever as dificuldades que encontra em cada problema.
“Não precisa ser perfeito na redação, mas seja explícito, escreva por extenso o que está acontecendo. Falar o que o incomoda no exercício fará com que a IA foque nisso. Se você disser apenas ‘não entendi’, ela vai tentar abordar qualquer coisa. Então, diga o que está passando na sua cabeça para que a dúvida fique clara”, afirma Silveira.
Além disso, há diferenças de respostas entre as versões gratuitas e pagas das ferramentas. As plataformas pagas são mais sofisticadas, e a interação pode ter um formato em que a IA faz perguntas guiadas para que o próprio aluno descubra o seu erro.
“A inteligência artificial acompanha a direção que o aluno está tomando e pergunta como ele desenvolveu o raciocínio até identificar onde está a falha”, explica Raggazzi. “Em seguida, ela entrega a etapa que deveria ter sido feita, para que o estudante aplique a sequência correta de passos em outras questões.”
Apesar das facilidades, o estudante deve ter um olhar crítico diante dos resultados apresentados. As IAs podem entregar dados imprecisos ou conteúdos defasados, o que exige dupla checagem.
Os especialistas também reforçam que o uso sem critério pode trazer riscos invisíveis. Para eles, a dependência excessiva prejudica a autonomia intelectual e diminui o interesse real do aluno pelo aprendizado.
Silveira ressalta que os estudantes evitem solicitar à inteligência artificial a criação de exercícios inéditos no padrão dos vestibulares. “Se a ferramenta produzir um exercício ruim, o aluno pode errar e concluir, erroneamente, que não domina o conteúdo, quando o problema está na qualidade da questão.”
Como alternativa, o especialista recomenda utilizar a tecnologia como busca para acessar exercícios já validados por humanos. “O ideal é pedir questões com características específicas dentro de materiais que passaram por revisão criteriosa.”
Dicas de como utilizar IA nos estudos para os vestibulares e o Enem
Com base nas recomendações dos especialistas consultados pela Folha, confira as principais dicas para o bom uso da inteligência artificial nos momentos de estudo:
Não terceirize o estudo
A IA deve ser usada como apoio para complementar o estudo, e nunca como substituta do seu estudo tradicional.
Seja explícito nos comandos
A qualidade da resposta das IAs depende da qualidade da pergunta. Em vez de enviar um genérico “não entendi”, escreva detalhadamente a dificuldade —como se estivesse pensando em voz alta.
Evite pedir a criação de exercícios inéditos
Não peça para a IA inventar questões “estilo Enem” do zero. A criação de um bom exercício exige um rigor técnico e humano para evitar pegadinhas ou ambiguidades. Em vez disso, peça para a ferramenta buscar na internet exercícios reais de provas anteriores sobre o tema que você está estudando.
Peça conteúdos estruturados para revisões
Para lidar com um grande volume de matérias, solicite que a IA organize os conteúdos na forma de resumos em tópicos, listas ou comparações. Usar a ferramenta para criar mapas mentais, por exemplo, ajuda a combater a curva de esquecimento e facilita a fixação na memória.
Explore o estudo progressivo
Se um tema estiver muito difícil de compreender de primeira, peça para a inteligência artificial explicar o assunto em diferentes níveis. Assim, começando uma explicação bem básica e, aos poucos, solicitar abordagens mais complexas e avançadas.
Cheque e valide todas as informações
As plataformas podem gerar respostas que parecem corretas, mas que trazem imprecisões, alucinações, dados desatualizados ou erradas. Nunca trate a IA como a fonte única da verdade, sempre faça checagem do que foi gerado com livros didáticos, materiais oficiais e professores.
Não abandone o estudo tradicional
É fundamental equilibrar a ajuda da IA com o estudo tradicional. Separe momentos para fazer simulados apenas com papel, lápis e em silêncio absoluto. No dia do vestibular, não será possível ter acesso a telas, então o cérebro precisa estar treinado para enfrentar a prova de forma autônoma e analógica.
















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