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Da porteira ao pregão: o custo da leniência e o Spread dos próximos seis anos

Em março, discutimos nesta coluna que a fronteira entre o suporte necessário e a leniência sistêmica é tênue e que o custo de cruzá-la não recai sobre quem pede a moratória, mas sobre quem nunca precisou pedir. Na última quinta-feira, 23 de abril, o ministro da Fazenda Dario Durigan apresentou sua contraproposta ao Senado para a renegociação das dívidas rurais. O número central é R$ 44,2 bilhões em inadimplência elegível, sendo R$ 37 bilhões em grandes produtores. 

O agronegócio brasileiro está diante de um divisor de águas que não será resolvido na colheitadeira, mas no desenho jurídico da securitização. A negociação atual carrega uma cifra muito mais pesada do que o valor nominal: ela ditará o custo do capital para o agro até, pelo menos, 2032.

O risco moral e o efeito no spread

O mercado de capitais detesta a incerteza. Mas abomina a quebra da previsibilidade de fluxo. Quando se discute um prazo de seis a dez anos para renegociação, a pergunta que a Faria Lima faz não é sobre a viabilidade da próxima safra de soja. É sobre o risco moral.

Se o PL 5.122/2023 — o chamado “PL da Securitização” — for interpretado como uma porta aberta para diferimentos compulsórios futuros, o resultado é matemático: o spread de crédito sobe. Investidores institucionais irão precificar a possibilidade de novos diferimentos. O custo da renegociação de hoje será pago pelo produtor eficiente de amanhã através de taxas mais elevadas e maior seletividade na concessão.

Esse mecanismo já está em curso. A inadimplência nos Fiagros saiu de 6,32% em dezembro de 2024 para 21,62% em julho de 2025, com o volume de dívidas em renegociação ou com “alto potencial de renegociação” entre R$ 86,6 bilhões e R$ 95,6 bilhões, segundo a consultoria Virtus.

A seletividade dos investidores já está restringindo o acesso ao CRA para emissores de médio porte, com preferência clara pelas emissões de primeira linha. Pequenos e médios produtores estão migrando para FIDCs, CPRs e até fundos de situações especiais — os chamados special sits — com custo superior.

O spread de crédito não precifica só a safra. Precifica o comportamento do setor quando a safra vai mal. E o mercado tem memória longa.

Quem está exposto: CRAs e ações que o investidor precisa monitorar

A mídia geral está focada no “socorro ao produtor”. O ponto cego é o investidor de CRA e FIDC.

Uma securitização mal desenhada não pune apenas o tomador inadimplente, ela eleva o prêmio de risco cobrado de todos os emissores do setor, incluindo os sólidos. É o custo coletivo da leniência individual.

O mercado de CRAs está em expansão: os CRAs subiram 15% em volume no último ano, com o crédito rural empresarial somando R$ 404 bilhões na safra atual, sustentado principalmente por instrumentos de mercado. Mas esse crescimento convive com uma bifurcação de risco crescente entre emissores. 

A tabela abaixo organiza os principais emissores e seus respectivos tickers por perfil de exposição ao cenário de renegociação:
tabela-exposicao-pl-5122-2023

* A tabela tem caráter analítico e não constitui recomendação de compra ou venda. Exposição ao cenário reflete sensibilidade estrutural ao PL 5.122/2023 e ao ambiente de renegociação de dívidas rurais.

A securitização como estrutura, não como remendo

O debate sobre o PL 5.122/2023 precisa evoluir para o campo da governança.

O Plano Safra 26/27 já caminha para consolidar uma mudança estrutural: o spread das operações equalizadas caiu de 4,81% para 2,90% com a abertura do modelo concorrencial, saindo de concentração quase absoluta no Banco do Brasil para 25 instituições operando em paralelo.

Esse avanço pode ser revertido se o mercado interpretar a renegociação como sinal de que o fluxo de recebíveis rurais é interrompível por decisão política.

Uma securitização robusta deve transformar ativos ilíquidos em papéis de alta qualidade, atraindo capital novo e barato. Se o projeto se limitar a empurrar a dívida com a barriga, perderemos a oportunidade de consolidar o agro no mercado de capitais exatamente no momento em que o Estado está saindo do protagonismo do crédito rural.

Para o investidor em CRA e FIDC agro, o monitoramento de solvência agora exige uma leitura qualitativa profunda: a qualidade das garantias, a cobertura de seguro rural e a capacidade de repagamento sob estresse. O monitoramento feito na ponta — que discutimos nos artigos anteriores desta coluna — torna-se o único filtro capaz de separar o joio do trigo em carteiras que enfrentarão esse ciclo de seis anos.

O horizonte de 2032

A decisão que será tomada este mês no Congresso e no Ministério da Fazenda estabelece o tom do financiamento para a próxima meia década. Estamos desenhando se o agro brasileiro será um setor de risco estruturado ou um setor de dependência cíclica.

Aos produtores, cooperativas e investidores, o recado é claro: o alívio imediato no caixa não pode vir às custas da destruição da reputação financeira do setor. A solvência é um ativo que se constrói em décadas e se perde em uma canetada de moratória. O mercado não esquece e o spread dos próximos seis anos já está sendo calculado agora.

Como tenho reiterado nesta coluna: o mercado não pune a falta de euforia. Ele pune a falta de estrutura. E, neste ciclo de renegociação, quem não entender que o custo do capital é reflexo direto da seriedade institucional pagará a conta — com juros — pelos próximos seis anos.



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