Uma pesquisa Datafolha divulgada esta semana mostrou que 33% dos brasileiros com mais de 16 anos acham que é mentira que o homem já viajou ao redor da Lua. Incredulidade e teorias conspiratórias sobre esse feito científico não são novidade, mas a notícia merece reflexão, principalmente num momento de popularização da inteligência artificial e seu impacto sobre a integridade da informação que acessamos.
A chegada de astronautas à Lua em 1969 foi transmitida com empolgação por emissoras de rádio e TV e publicada em jornais e revistas consumidos por boa parte da população mundial. À época, os meios de comunicação de massa atuavam como um “denominador comum” e, de forma unidirecional, publicavam aquilo que acostumamos a chamar de realidade compartilhada. Ainda assim, havia quem duvidasse: o “passo pequeno para um homem mas gigante para a humanidade” não passava de encenação em um estúdio, diziam.
O que aconteceria se Neil Armstrong e seus companheiros já vivessem na era da internet? Exatamente o que vemos agora, diariamente, diante de qualquer fato ou notícia mais ou menos importante que surge: uma avalanche de conteúdos publicados em canais e perfis com os mais variados propósitos —de explicações técnicas bem embasadas a palpites sem qualquer fundamentação.
A superabundância de informações traz novas perspectivas e abordagens para o debate público, mas também fragmenta a realidade e nos impõe o desafio incessante da curadoria e do olhar crítico para avaliar evidências, intenções e mecanismos embutidos em cada mensagem de texto, áudio ou vídeo.
Há cerca de 30 anos, em seu famoso livro “Cibercultura”, o filósofo e sociólogo Pierre Lévy apresentou a ideia de um universo sem totalidade para descrever a expansão vertiginosa dos ambientes de comunicação. Para ele, quanto mais o mundo se interconecta, menos “totalizável” se torna a história que é contada. “Cada conexão suplementar (no ciberespaço) acrescenta ainda mais heterogeneidade, novas fontes de informação, novas linhas de fuga, a tal ponto que o sentido global encontra-se cada vez menos perceptível, cada vez mais difícil de circunscrever, de fechar, de dominar”, escreve.
Sem o elo comum do fato, a partir do qual até podemos discordar, não há diálogo que se sustente ou decisão que seja bem informada. O cenário de dilúvio informacional, também abordado por Lévy, demanda inclusão e novos letramentos que não podem ser reduzidos à dimensão técnica, o “saber usar” —é urgente que contemple também o “saber refletir” sobre esse uso.
Conteúdos gerados por IA tornam-se cada vez mais sofisticados, praticamente decretando a morte do “ver para crer”. Não é difícil imaginar a infinidade de narrativas paralelas que podem ser produzidas hoje sobre a conquista do espaço.
Aliás, será interessante acompanhar as histórias que serão contadas nas redes sobre a nova missão lunar planejada pela Nasa, com a Artemis 2. Das curiosidades da vida, a primeira tentativa de lançamento estava marcada para este 1o de abril, conhecido como o Dia da Mentira.
Em alusão à data, o Instituto Palavra Aberta divulga uma campanha para conscientizar sobre os cuidados com conteúdos gerados por IA. Assista aqui.

















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