Com toda a pressão que abala o vestibulando poucos meses da prova, sentar na cadeira e colar a cara nos livros não é tão simples quanto parece. Por isso, é comum que os alunos recorram a métodos famosos para manter o foco e a concentração nessa reta final dos estudos.
Seja por meio de técnicas que ajudam a fixar o conteúdo ou de pausas planejadas que funcionam como recompensas, esses métodos não são novidade. Mas, nos últimos anos, ganharam força em comunidades online de estudantes como ferramentas para maximizar a aprendizagem, memorizar e reter informações.
João Camargo, 19, é vestibulando e incorporou alguns desses recursos à rotina de preparação. Morador de Ilhabela, ele se mudou para Campinas para estudar e buscar uma vaga em medicina.
“Uso alguns métodos com propósitos diferentes. A autoexplicação eu uso para aprender de fato, como se estivesse dando aula para alguém. O mapa mental é mais para quando preciso memorizar fórmulas ou conceitos-chave”, conta.
A autoexplicação consiste em falar em voz alta ou escrever com as próprias palavras o que acabou de estudar, o que ajuda a fixar o conteúdo e identificar pontos de dúvida. Já o mapa mental organiza ideias de forma visual, em diagramas, facilitando a memorização de fórmulas e sequências.
Além da sala de aula, João conheceu os métodos de ensino na internet. Ao pesquisar nas redes sociais, é fácil encontrar até quem venda esses recursos como se fossem soluções milagrosas. Pomodoro, resumos, flashcards, autoexplicação e mapas mentais são alguns deles. Apesar da variedade de dicas, não existe fórmula universal. Cada técnica tem vantagens e limitações, e nem todas funcionam da mesma forma para todos os estudantes.
Segundo a professora da Faculdade de Educação da USP, Elaine Vidal, a aprendizagem é um processo de “aproximações sucessivas do objeto de conhecimento”. Ou seja, dificilmente alguém aprende algo de forma completa na primeira vez que tem contato com o assunto. É preciso revisitar e se aproximar do conteúdo em diferentes momentos, mudando e aprofundando a compreensão a cada nova exposição. “Todo método que favoreça esse processo é positivo”, explica.
Na hora de escolher a estratégia, o estudante precisa avaliar onde está sua maior dificuldade. “Se o problema é concentração, uma técnica pode ajudar. Se é compreensão do conteúdo, talvez outra. Não existe um método universal, porque nós, como seres humanos, somos singulares”, afirma Vidal.
No cursinho, João incorporou o método Pomodoro —que organiza o tempo em ciclos de estudo e descanso— à sua rotina, mas adaptou-o ao próprio ritmo. Em vez de pausas curtas a cada 25 minutos, prefere blocos maiores antes de descansar.
De acordo com o diretor do cursinho Oficina do Estudante, Wander Azanha, o Pomodoro é o método mais popular entre os alunos do pré-vestibular. “Sempre que passo pelas mesas, vejo cronômetros ao lado dos estudantes. Eles encaram o intervalo como uma recompensa, o que ajuda a manter a disciplina”, diz. Ele acrescenta que, muitas vezes, esse tempo de pausa é usado para checar o celular e aliviar a ansiedade.
Entender se o conteúdo é mais conceitual, beneficiando-se, por exemplo, de mapas mentais, ou mais procedimental, que exige repetição e resolução de exercícios, também ajuda na escolha do método de estudo.
Azanha observa que é comum os vestibulandos variarem as técnicas conforme a disciplina. “Vejo que os flashcards e mapas mentais funcionam muito bem para biologia, história e geografia, em que há muitos termos para memorizar. Já em física, química e matemática, costuma ser mais eficaz resolver exercícios dentro desses blocos de tempo.”
OUTRAS ESTRATÉGIAS
Ainda que os métodos de estudo sejam aliados importantes, nenhum deles funciona isoladamente. Para revisar de forma eficiente, a recomendação é combiná-los com exercícios práticos.
Na reta final do vestibular, a resolução de provas antigas ainda é a melhor estratégia. Ela permite ao estudante familiarizar-se com a linguagem, a estrutura, os tipos de questão e o tempo de cada exame, que variam bastante de uma instituição para outra.
Uma possibilidade é dividir o uso das provas passadas: algumas podem ser resolvidas em blocos com a técnica Pomodoro, como listas de treino; outras podem ser usadas como simulações completas, reproduzindo o tempo real do exame e incluindo a correção pelo gabarito.
De acordo com Azanha, o mais importante do que apenas treinar, porém, é analisar os erros cometidos —para identificar se foram resultado de falta de conhecimento, desatenção ou de conteúdos ainda não estudados— e, assim, ajustar a preparação.
Além das técnicas de estudo, cuidar da gestão emocional e da ansiedade é fundamental nessa fase — o que ajuda a explicar a popularidade do Pomodoro. Para a professora Elaine Vidal, manter a saúde mental em equilíbrio exige alternar períodos de estudo com descanso, preservar momentos de lazer e não se isolar de amigos e familiares. Essas estratégias, segundo ela, são essenciais para evitar o esgotamento.
Na rotina da preparação, João também desenvolveu estratégias próprias para lidar com o cansaço e a ansiedade. “Se eu estou muito cansado, tento tirar um cochilo de meia hora, porque, se não descansar, não vai render. Se é ansiedade, eu relaxo brincando com o cachorro ou dou um pulo na piscina gelada.”, para ele, essas pausas são tão importantes quanto métodos e estratégias de estudo.
CONHEÇA ALGUNS MÉTODOS DE ESTUDO
Pomodoro – Divide o tempo em ciclos de estudo e descanso (geralmente 25 minutos de foco + 5 de pausa). Ajuda a manter a concentração e a lidar com distrações. Pode ser adaptado para blocos maiores, de acordo com a disciplina e o perfil do estudante.
Mapas mentais – Organizam informações de forma visual, conectando conceitos por meio de diagramas. São eficazes para sintetizar leituras e estruturar ideias, mas menos indicados para cálculos e conteúdos que exigem prática.
Autoexplicação e estudo em duplas – Consiste em explicar a matéria em voz alta para si mesmo ou para outra pessoa. Favorece a fixação e a compreensão, já que obriga a reorganizar as informações. Em pares, pode ser ainda mais eficiente, pois surgem novas perguntas e pontos de vista.
Flashcards – Cartões com perguntas de um lado e respostas do outro. São ideais para conteúdos com muitos termos, definições e fórmulas —como biologia, história e geografia. O uso digital, em aplicativos, permite repetições espaçadas e acompanhamento de desempenho.
Prática distribuída (ou revisões espaçadas) – Baseia-se em revisar os conteúdos em diferentes momentos, em vez de concentrar tudo de uma vez.
E o velho e bom resumo – Método tradicional e versátil, útil para revisar textos longos e destacar pontos centrais. A eficácia aumenta quando o resumo é feito com as próprias palavras, em vez de apenas copiar trechos.
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