Estou no Porto, num dos últimos andares do hotel que se anuncia como o edifício mais alto da bela cidade do norte de Portugal. Aqui de cima vejo com clareza, além do casario batido pelo sol, a posição impossível em que o Brasil foi escalado no time da “lusofonia”.
Trazido pela Associação Portugal Brasil 200 anos com apoio do Instituto Guimarães Rosa, vim participar de uma das celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, na terça (5), no prédio histórico da antiga cadeia em que o escritor oitocentista Camilo Castelo Branco ficou preso por adultério.
Intitulado “Esta Língua que nos Une”, o evento incluiu desde a senadora brasileira Teresa Leitão (PT-PE) até a escritora portuguesa Inês Pedrosa. Foi caloroso e cheio de votos de irmandade sinceros trocados por amantes da língua.
No entanto, voltarei para casa com a convicção renovada de que o papel destinado ao Brasil na suposta comunidade chamada lusofonia —que o linguista Marcos Bagno apelidou de “ilusofonia”— é insustentável. Isto é, caso a gente tenha a dose de altivez da qual nenhuma nação soberana deve abdicar.
O jogo atual é esquisito. O Brasil entra com mais de 200 milhões de falantes, em torno de 80% dos lusoparlantes do globo; com o ímã de estudantes estrangeiros de português representado pela décima economia do mundo; com sua música popular de reconhecimento planetário e com os maiores escritores da língua nos séculos 19, Machado de Assis, e 20, Guimarães Rosa.
Em troca, recebe declarações de amor à diversidade, algumas das quais mal disfarçam a condescendência; posições em organismos de cooperação sobre política linguístico-cultural projetados para não ir a lugar nenhum; e puxões de orelha sobre nossa incapacidade de, tantos séculos depois, aprender português direito. Como se diz no meu país, é de lascar o cano.
Que o português brasileiro tem sua própria norma —fato já intuído e defendido por José de Alencar em meados do século 19, mas ainda capaz de escandalizar nosso senso comum e alguns gramáticos ultraconservadores, ô lerdeza— é atestado por muitos dados de realidade.
Para nem mencionar o perrengue enfrentado por filhos de imigrantes brasileiros em escolas portuguesas, alguns dos mais eloquentes são a inexistência de traduções de livros estrangeiros comuns a Brasil e Portugal; os dicionários estrangeiros que se autodenominam, por exemplo, “de italiano-brasileiro”; e o fato dos certificados de proficiência em português nos dois países não serem mutuamente reconhecidos.
Entre outros, esses sintomas são listados pela maior autoridade brasileira na língua, Carlos Alberto Faraco, no livro que recomendei aqui semana passada, “O Linguista e sua Caixa de Ferramentas”.
Tendo atuado numa tentativa de gestão multinacional do idioma, coordenando de 2014 a 2018 a comissão brasileira junto ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), a desilusão de Faraco com tal possibilidade reflete a maturidade do melhor pensamento acadêmico brasileiro sobre a questão. Falta sociedade e governo acompanharem.
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