O reitor da USP (Universidade de São Paulo), Aluisio Segurado, afirmou que não vai reabrir negociações com os estudantes em greve após a invasão do prédio da reitoria, ocorrida nesta quinta-feira (7).
Para ele, a proposta de R$ 912 para o auxílio permanência é final e não há o que discutir. Os alunos pedem aumento para um salário mínimo paulista, R$ 1.804.
“Abrir negociação novamente para uma proposta que já foi apontada como proposta final da universidade, do ponto de vista das suas possibilidades orçamentárias, não nos é possível fazer”, disse em entrevista a jornalistas nesta sexta-feira (8).
Segurado analisou o movimento e disse que ele pode estar sendo movido por uma agenda política externa à instituição. Citou o fato de que, desde o início da paralisação, já havia convocação para um ato no Palácio dos Bandeirantes no dia 20 de maio, contra o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
A Polícia Militar fechou os acessos da rua da reitoria e cercou o prédio ocupado por estudantes nesta sexta. Por volta das 8h, a energia elétrica e a água do prédio foram cortadas. Viaturas da PM permaneceram posicionadas nas imediações do local.
O reitor disse ter visto nas imagens da invasão estudantes com camisetas e bandeiras de partidos e movimentos políticos, incluindo agremiações as quais, segundo ele, nunca conseguiram eleger representantes ao parlamento.
“Há uma outra agenda, externa à universidade, que os estudantes estão querendo levar adiante”, afirmou. “A que interesses ela serve, eu não ousaria tentar adivinhar.”
A greve teve início em 14 de abril, impulsionada pelo apoio dos estudantes à paralisação dos servidores, que protestavam contra uma gratificação mensal de R$ 4.500 concedida aos docentes sem contrapartida equivalente para as demais categorias.
Os trabalhadores encerraram o movimento após acordo com a reitoria, mas os discentes seguiram mobilizados.
Além do reajuste do auxílio permanência ao valor de um salário mínimo paulista, as principais reivindicações incluem melhorias nos restaurantes universitários, ampliação de políticas de cotas e melhores condições nas moradias estudantis.
Foram feitas várias propostas pela USP para encerrar a paralisação, mas houve divergências.
No centro do impasse está o valor do Papfe (Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil). Após 20 horas de reuniões em três rodadas, a reitoria propôs reajuste do benefício de R$ 885 para R$ 912, corrigindo a defasagem inflacionária desde a criação do programa, em 2022.
Segundo Segurado, o próprio movimento grevista havia pedido a correção pelo índice IPC da FGV (Fundação Getulio Vargas) desde 2023, e a gestão aceitou, chegando exatamente a esse valor.
O reitor afirma que, quando a proposta foi apresentada como final, os estudantes chegaram com a demanda de elevar o auxílio ao salário mínimo paulista.
“A reivindicação mudou. Ela mudou, digamos, sensivelmente, simplesmente dobrou para o salário mínimo paulista”, disse.
Para ele, a postura dos estudantes descaracterizou a própria ideia de negociação. “Ouvir dos estudantes que a negociação deverá continuar até que todas as reivindicações sejam atendidas, para mim, não é negociação.”
A última mesa de negociação ocorreu na semana passada, na quinta-feira (30). Na segunda-feira (4), a instituição publicou nota dizendo não ter mais interesse em debater as pautas, levando os alunos a invadir a reitoria três dias depois.
Questionado se a reitoria errou ao declarar encerradas as negociações, Segurado recusou a qualificar a decisão. Também não respondeu aos relatos de que parlamentares e estudantes tentaram contato com a USP após a ocupação e não obtiveram resposta.
Há uma outra agenda, externa à universidade, que os estudantes estão querendo levar adiante
A questão sobre possíveis falhas voltou quando foi realizada uma retrospectiva da paralisação: a aprovação da gratificação aos docentes, a greve dos servidores, a adesão dos estudantes e a escalada até a invasão. Perguntado se algo poderia ter sido feito diferente a fim de evitar a situação atual, o reitor foi direto. “Não, eu não reconheço erro.”
Segurado argumentou que a gratificação aos docentes, a Gace, vinha sendo trabalhada há vários anos em gestões anteriores.
Sobre a crítica de que a reitoria teria priorizado docentes em detrimento dos estudantes, rebateu com números: a USP, disse, já investe mais de R$ 460 milhões por ano em permanência estudantil.
“Isso é mais do que a soma do investimento que será feito nas gratificações a docentes e servidores”, afirmou. Cada uma deve custar R$ 238,44 milhões ao ano.
Sobre a invasão, ele relatou ter acompanhado o episódio “com muita tristeza e decepção” e ressaltou que a Polícia Militar atuou contendo a circulação sem usar violência.
Uma cena, porém, causou perturbação ao médico por formação. “Me entristeceu ainda mais, em 51 anos que eu vivo na USP, por ter visto alunos mascarados, alunos encapuzados, ocultando os seus rostos num ato de violência.”
Por fim, Segurado foi informado pela reportagem e demonstrou desconhecer a disposição dos estudantes de deixar o prédio caso a reitoria abrisse diálogo, mesmo sem garantia de atendimento das reivindicações. O tema foi debatido pelos discentes em assembleia, mas a gestão não respondeu a nenhum contato dos grevistas.
“Você está me dando uma boa notícia, eu não fui à assembleia dos estudantes”, respondeu. “Até agora o que eu tava ouvindo era só intransigência.” E completou: “Que a gente possa avançar um pouquinho nessa direção a partir do que você tá me dizendo”.
Daniele Milena Oliveira dos Santos, integrante da Executiva do DCE (Diretório Central dos Estudantes) e estudante da ECA (Escola de Comunicações e Artes), afirmou que os alunos passaram a noite de quinta para sexta em estado de alerta.
“A ocupação se concentra principalmente nas entradas centrais da reitoria, mas estamos cercados pela polícia. Existe uma tensão porque o Choque está em volta da ocupação”, afirmou.
Na manhã desta sexta, estudantes organizaram reuniões entre centros acadêmicos para definir os próximos passos da mobilização. Também estão previstas atividades culturais e políticas no entorno da ocupação.
A ocupação da reitoria ocorrida nesta quinta é a primeira desde 2013. Naquele ano, o movimento começou em 1.º de outubro e só terminou no dia 12 de novembro, quando a Justiça determinou a reintegração de posse, com a participação da Polícia Militar. Estudantes foram presos na ocasião.
Colaborou Bárbara Sá.















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